Frank X. Gaspar - Poet, Novelist
Poemas em Português
Kapital
("Kapital" from A Field Guide to the Heavens) Empilhando caixas de caçãoao longo do pátio da conserveira,
pega no lápis grosso e ensebado que
usas para marcar 36/BOS ou 42/NY
nos tampos de pinho
e faz um círculo à volta
do ponto onde trabalho se torna
lucro ou onde o cigarro do meu
padrasto, trinta cêntimos o maço
por esses dias, ia cintilando
desde o seu lábio quando sua bota
atingia o gelo molhado, quando descia
sob as rodas do camião-guindaste:
Três cêntimos a libra, vinte mil
libras, empacotadas em gelo e empilhadas:
Tira os custos para caixas,
os madeireiros em suas jaulas de aço
bombeando pedais, tira o teu
custo para gasóleo, tira
a parte do barco, as duas partes
do proprietário, a meia-parte do
filho do capitão, tira o fazer aquele par
de luvas rasgado durar outra semana,
leva-lhe sopa quente e pão,
leva-lhe o seu inútil cartão do sindicato
e a sua termos de café
o seu boné de vigia sobre as orelhas:
Não o podes salvar—ele só
quis voltar para casa para um jantar quente,
picado e ovos numa panela enegrecida
e inclinar-se depois sobre o fogão de ferro
para aquecer as costas antes da cama.
Mas não há nada que possas fazer
no teu terror de criança pequena
quando a mulher diz, O que
comeremos? Como viveremos?
Tu comerás e viverás,
desta vez, nesta vida, embora
noutros tempos tenhas perecido,
e em ulteriores manhãs de Inverno
te tenhas levantado da selha do almoço
arrastado ao longo do cais espelhado
calculando o teu salário pelos dedos,
teu difícil olhar desenhando sua luz essencial
elevando-se das traineiras vazias
enquanto se trancavam e afivelavam
no porto enregelado.
—POESIA & LDA (Poesia Ilimitada) Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006, online (Includes the English version of "Kapital" and the Mundo Português interview of Frank Gaspar by António Oliveira.
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Largando o Pico
("Leaving Pico" from A Field Guide to the Heavens, translation by Vamberto Freitas) Ouvíamos da cozinha o falar do Picoonde os vivos se sentavam a enrolar
cigarros nos seus dedos grossos,
as garrafas de cerveja
à sua frente na mesa
onde se sentavam e diziam "verde",
green, como as costas
de certos peixes ou os pescoços
de pequenos melros que sugavam
flores desabrochando na primavera
ao longo das paredes caiadas de branco:
caminhos verdes e de barro, diziam eles,
e os paredões ondulantes
pincelados de cal branca
e quantos baús
no porão de um navio,
que talheres, que panos, quantos
rosários e velas para a Virgem,
e as orações para os velhos mortos
deixados para a eternidade nos montes húmidos
(os montes verdes, e à noite
a luz das candeias de azeite
e por vezes o lamento duma viola
e os moinhos brancos sobre
o exíguo chão dos mortos)
e tudo isto enquanto se
preparavam para dormir por detrás
dos lábios roxos e olhos pesados
nesta terra distante
consolados somente pelo modo como a lua
e as marés se posicionam
caminhando para outras escuridões
como quem não quer mais regressar.
Poem from "Poemas de Frank X. Gaspar" online (Includes both English and Portuguese versions of three poems)
Frank's photo by David A. Lipton