Poemas em Português

   Estou a Chorar o Lenço Branco
                     do Adeus

—Depois de ler um verso de Adelaide Freitas ("I Am Lamenting the White Kerchief"—after a line by Adelaide Freitas," Translation by Vamberto Freitas)

Choro o  lenço branco das nossas despedidas,
Choro a agitação do vento a soprar entre
tantos ramos nus das árvores que orlam os
   sulcos de inverno
de-onde? Onde passeávamos e passeávamos
   nos
pequenos montes, aí onde as árvores se alinhavam, tão determinadas? Tão firmes?
Tudo isto para dizer que a nossa despedida foi
   uma rendição. Tudo isto para
dizer que certas árvores, nada tendo a ver
   connosco,
se quedavam subitamente atentas, lançando
   sobre nós um breve olhar.

Estou perdido. Não há esperança para mim.
   Estou afundado na linguagem
dos afectos, para a qual não há  tradução. As
   nossas despedidas
ridicularizam-nos. Que te diz  agora o teu
   coração? Em que se fixam
os teus olhos ensonados? Devias ter permitido
   que o vento
te acarinhasse. Eu devia ter permitido que as
   árvores como pai me encaminhassem.
E o coração: esse herói, esse monstro de
   todas as nossas rendições.

             Torrão Natal

("The Old Country" from The Holyoke, translation by Vamberto Freitas)

Minha mãe nunca varria à noite,
nunca nos deixava varrer.  O ruge-ruge da    vassoura,
dizia ela, acordaria os mortos.
Aqui está uma dança para te fazer tremer
no chão gasto da cozinha.

Uma vez vi-a chorar de raiva e dor,
A derramar gasolina de isqueiro,
como uma ribeira de mijo, vazando
a vida no chão. Vou queimar
esta maldita casa. Não viemos
da nossa terra  para agora vivermos assim.

Falávamos não de nós, mas dos velhos,
Daquele pobre barco do Pico.
O meu padastro sem conseguir acalmá-la
caía na sua própria raiva, dando-se conta de
que também tinha sido vencido. Pregou-lhe    uma canelada
e recusou-se chorar como chorávamos.

Era uma casa clamando pelos seus próprios    fantasmas.
Um dia aprendemos a deitarmo-nos
com a cabeça presa entre mãos,
recordando os seus velhos nomes,
o pó frio do chão na cara,

para lembrar esse torrão-natal que apenas    conhecíamos
das histórias. As vozes dos mortos
nunca são aquilo que esperamos, trovão    distante
nos montes baixos, o uivar do cão
ao longe, silêncio.

E este torrão-natal é um lugar qualquer que
tenhamos de abandonar. As vozes
implorando o nosso regresso são ilusórias.
Agora já viajei até ao fim do mundo, temendo    os mortos.
Insistem ainda em falar através de mim.

—Poems from the article in Portuguese Times online (New Bedford, Mass.) "Três Poemas de Frank X. Gaspar: Um Outro Lado do Nosso Espelho by Vamberto Freitas (Includes both English and Portuguese versions of three poems)

             _____________________

        ENTREVISTA (Interview)

....Frank X. Gaspar é neto de açorianos da ilha do Pico que emigraram para a América no princípio do século. Jesse e Rosa Gaspar terão sido os primeiros a deixar o Pico, trazendo consigo o avô de Frank, nascido na ilha por volta de 1880. Este aprendeu inglês em New Bedford, onde foi condutor de eléctrico antes de se mudar para Provincetown para se dedicar à pesca da amêijoa. Viria a tornar-se o supervisor desta actividade (Clam Warden). Ambos os lados da família estão ligados pelo mar, pois o seu bisavô, Antone Costa, foi também pescador, mas de baleias. Deve ter emigrado para os Estados Unidos em fins do século XIX ou princípios do XX. Desapareceu no mar em 1913....
—Entrevista de António Oliveira in Mundo Português, online

                 Kapital

("Kapital" from A Field Guide to the Heavens)

Empilhando caixas de cação
ao longo do pátio da conserveira,
pega no lápis grosso e ensebado que
usas para marcar 36/BOS ou 42/NY
nos tampos de pinho
e faz um círculo à volta
do ponto onde trabalho se torna
lucro ou onde o cigarro do meu
padrasto, trinta cêntimos o maço
por esses dias, ia cintilando
desde o seu lábio quando sua bota
atingia o gelo molhado, quando descia
sob as rodas do camião-guindaste:
Três cêntimos a libra, vinte mil
libras, empacotadas em gelo e empilhadas:
Tira os custos para caixas,
os madeireiros em suas jaulas de aço
bombeando pedais, tira o teu
custo para gasóleo, tira
a parte do barco, as duas partes
do proprietário, a meia-parte do
filho do capitão, tira o fazer aquele par
de luvas rasgado durar outra semana,
leva-lhe sopa quente e pão,
leva-lhe o seu inútil cartão do sindicato
e a sua termos de café
o seu boné de vigia sobre as orelhas:
Não o podes salvar—ele só
quis voltar para casa para um jantar quente,
picado e ovos numa panela enegrecida
e inclinar-se depois sobre o fogão de ferro
para aquecer as costas antes da cama.
Mas não há nada que possas fazer
no teu terror de criança pequena
quando a mulher diz, O que
comeremos? Como viveremos?

Tu comerás e viverás,
desta vez, nesta vida, embora
noutros tempos tenhas perecido,
e em ulteriores manhãs de Inverno
te tenhas levantado da selha do almoço
arrastado ao longo do cais espelhado
calculando o teu salário pelos dedos,
teu difícil olhar desenhando sua luz essencial
elevando-se das traineiras vazias
enquanto se trancavam e afivelavam
no porto enregelado.

POESIA & LDA (Poesia Ilimitada) Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006, online (Includes the English version of "Kapital" and the Mundo Português interview of Frank Gaspar by António Oliveira.

          _____________________

            Largando o Pico

("Leaving Pico" from A Field Guide to the Heavens, translation by Vamberto Freitas)

Ouvíamos da cozinha o falar do Pico
onde os vivos se sentavam a enrolar
cigarros nos seus dedos grossos,
as garrafas de cerveja
à sua frente na mesa
onde se sentavam e diziam "verde",
green, como as costas
de certos peixes ou os pescoços
de pequenos melros que sugavam
flores desabrochando na primavera
ao longo das paredes caiadas de branco:
caminhos verdes e de barro, diziam eles,
e os paredões ondulantes
pincelados de cal branca
e quantos baús
no porão de um navio,
que talheres, que panos, quantos
rosários e velas para a Virgem,
e as orações para os velhos mortos
deixados para a eternidade nos montes húmidos
(os montes verdes, e à noite
a luz das candeias de azeite
e por vezes o lamento duma viola
e os moinhos brancos sobre
o exíguo chão dos mortos)
e tudo isto enquanto se
preparavam para dormir por detrás
dos lábios roxos e olhos pesados
nesta terra distante
consolados somente pelo modo como a lua
e as marés se posicionam
caminhando para outras escuridões
como quem não quer mais regressar.

Poem from "Poemas de Frank X. Gaspar" online (Includes both English and Portuguese versions of three poems)

 

 

 

 

 

Frank's photo by David A. Lipton