FRANK GASPAR: mais um escritor luso-americano em destaque

Frank X. Gaspar: escrever em inglês o sentir português

    Entrevista de António Oliveira
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Frank X. Gaspar é um escritor bem conhecido no mundo literário norte-americano, especialmente nos círculos da edição poética, já que os seus primeiros livros são de poemas. É o autor de “The Holyoke”, “Mass for the Grave of a Happy Day” e “A Field Guide to the Heavens”, todos eles livros premiadas. “Mass for the Grave of a Happy Day” foi galardoado com o prémio Anhinga de Poesia em 1994 e “A Field Guide to the Heavens” com o Britting Prize in Poetry. A sua última obra, porém, não é poesia mas uma novela intitulada “Leaving Pico”, publicada em 1999 e bem recebida pela crítica, nomeadamente pelo “The New York Times”. Trata-se da sua primeira incursão na prosa (ao nível da publicação), mas as críticas não poderiam ter sido melhores. Tudo isto não nos chamaria a atenção se Frank X. Gaspar não fosse um luso-americano descendentes de açorianos, nascido e criado em Provicentown, Massachussetts, e escrevesse sobre o seu sentir português. “Leaving Pico” é a história de uma família portuguesa de Provincetown e o seu dilema perante as novas situações que o dia-a-dia americano lhes traz. O “The New York Times” escreveu dela: “A simple and satifaying first novel... Gaspar’s novel is an expert portrait of the Portuguese immigrant experiences, from its resistance to full integration”. Depois de Catherine Vaz, Gaspar é mais um luso-americano a fazer história na literatura americana.

 

Frank X. Gaspar é neto de açorianos da ilha do Pico que emigraram para a América no princípio do século. Jesse e Rosa Gaspar terão sido os primeiros a deixar o Pico, trazendo consigo o avô de Frank, nascido na ilha por volta de 1880. Este aprendeu inglês em New Bedford, onde foi condutor de eléctrico antes de se mudar para Provincetown para se dedicar à pesca da amêijoa. Viria a tornar-se o supervisor desta actividade (Clam Warden). Ambos os lados da família estão ligados pelo mar, pois o seu bisavô, Antone Costa, foi também pescador, mas de baleias. Deve ter emigrado para os Estados Unidos em fins do século XIX ou princípios do XX. Desapareceu no mar em 1913.

Os seus pais já nasceram em Provincetown, então uma cidade piscatória sobretudo ocupada pela comunidade açoriana. Frank Gaspar também aqui nasceu e cresceu até aos 17 anos, altura em que decidiu sair de casa em busca da sua «fé». Sabia que queria ser um escritor, mas era necessário entender primeiro as complexidades do mundo fora da sua pequena cidade «portuguesa» de Provincetown. Trabalhou então em vários empregos em New York e Boston durante ano e meio até decidir fazer-se ao mar (instinto ancestral?) como embarcado. Por aqui se manteve durante três anos e meio, até aos 24 anos, altura em que decidiu matricular-se na Universidade para concluir um curso superior.

 

Mundo Português — Quando é que sentiu que escrever era aquilo que realmente queria fazer?

Frank X. Gaspar — Sempre soube que seria um escritor. Eu sei que isso parece esquisito, mas é a verdade. Quando era criança costuma rabiscar em tudo o que era papel, e na escola, em vez de fazer os trabalhos de casa, escrevia poemas e pequenas histórias. A escrita a sério, porém, só começou no colégio. Como já tinha 24 anos, tirei todas as disciplinas de escrita que pude e lia sem parar. Acho que esta foi a primeira vez que comecei a levar-me a sério.

O mar... português

MP — O mar é qualquer coisa que está sempre presente na sua vida e livros...

FG — O mar está nos meus ossos. Cresci à beira-mar e todos os homens de sucesso na minha cidade eram pescadores. Outros, tais como o meu padrasto, trabalham na indústria do peixe ou no cais. Isto foi nos dias de glória de Provincetown, quando a cidade era como uma base de Portugal e a frota pesqueira, toda ela portuguesa, andava à volta dos oitenta navios. Quando penso na minha herança portuguesa, penso nesses tempos, nesses homens corajosos, nos bares de pescadores, no agradável cheiro do peixe, dos barcos presos ao cais, do cheiro do gasóleo... Foi um tempo de uma beleza ímpar, mas também de trabalho duro. Imagine um miúdo a crescer num ambiente destes! Eu fui dono do meu próprio barco aos 16 anos. Era um barco usado, que deixava entrar água e para o qual comprámos um motor de cinco cavalos em terceira-mão. Pescava então cavala e solha e era obrigado a tirar-lhe a água de quinze em quinze minutos. Mas era maravilhoso. Todos nós éramos bons conhecedores do oceano. Mergulhávamos para apanhar as moedas lançados pelos turistas dos barcos e pescávamos amêijoa. Descrito desta forma, parece um paraíso, mas a verdade é que nós éramos pobres, e há também uma face negativa nisto tudo. Mesmo assim, a beleza estava em todo o lado, especialmente nas pessoas, esses maravilhosos portugueses, os mais velhos, e depois a geração dos nossos pais. Que mundo esse!

A influência portuguesa na escrita

MP — Você foi educado na cultura portuguesa, com valores como o respeito pelos mais velhos, a religião, etc. Até que ponto é que isto influenciou a sua escrita?

FG — A minha escrita, muita da poesia e certamente toda a novela, vêm do amor que sinto pelas tradições da minha herança cultural. Desde cedo que prometi a mim mesmo escrever um livro sobre a minha terra natal, sobre os seus dias de glória, a beleza da comunidade portuguesa, as suas privações e maravilhas. Tudo isto é consequência da nossa maneira de ser muito portuguesa de preservarmos e respeitarmos o passado. Sinto que tenho uma grande dívida para com os já desaparecidos. A novela foi uma tentativa de dar vida novamente a essas pessoas e a esse tempo, da mesma forma que levamos flores à campa dos que já morreram e falamos com eles. Sempre que visito Provincetown desloco-me até à campa onde estão os meus antepassados. Às vezes levo vinho português, que o meu avô tanto adorava. Então sirvo um pouco para ele e bebemos os dois. Gosto muito de conversar com ele e nos últimos tempos há sempre uma imagem que me vem à memória. É a imagem de homens num baleeiro, remando com força e gritando. Neva sobre a baía e o homem está vestido com um casaco e chapéu de lã. Reconheço o meu tio e o meu avô, mas não tenho a certeza quem são os outros. Mas sei que eles são meus antepassados de alguma forma. E depois há um acento vazio e um remo na proa. Esse será o meu lugar. Eles virão buscar-me quando eu morrer para me juntar a eles no barco e remar e gritar pelo mar cheio de neve, quem sabe para onde... Esta é a imagem que eu vejo. Sei que um dia me juntarei a eles e que será uma reunião feliz. Mesmo assim, espero que esse dia não chegue demasiado cedo. Tenho mais livros para escrever...

As personagens portuguesas de Provincetown

MP — Os seus três primeiros livros são poesia, mas o último é uma novela. Começou por escrever poesia ou prosa?

FG — Eu comecei a escrever pequenas histórias. Eram boas, mas não o suficiente. Comecei a escrever poemas porque me permitiam exprimir as coisas de uma forma mais directa. O meu primeiro livro, “The Holyoke”, é praticamente todo acerca da minha experiência de crescimento na comunidade portuguesa de Provincetown. As histórias não me levam até esse passado com tanta emoção.

MP — Pode explicar a presença da sua herança cultural portuguesa nos seus poemas?

FG — Não posso dar uma explicação muito adequada. Durante anos eu pensei que nós — quero dizer, os «Provincetonianos» — éramos os únicos portugueses nesta terra. Eu não tinha ideia nenhuma da quantidade de portugueses que residiam em outras áreas da América e desconhecia a existência de publicações em português, tal como esta, ou organizações e associações. Senti-me isolado, mas sinto-me também na obrigação de contar a minha história, a NOSSA história. O meu coração bate em português, os meus primeiros cheiros são os cheiros da casa portuguesa, do peixe salgado, da sopa de couves. As nossas festas eram celebradas à maneira portuguesa, não só porque os nossos pais queriam preservar as tradições, mas porque eram aquilo que eles conheciam.

MP — Pensa que essa influência é fundamental na sua obra literária? De que forma?

FG — Sim, tem sido fundamental. Tal como disse Mary Oliver acerca do meu primeiro livro, “O seu povo é português”. Esse livro nasceu directamente das minhas raizes. Onde é que isso me vai levar, não sei. Agora estou a aprender muita coisa sobre a língua e a escrita portuguesa, mas não tenho nenhuma ideia onde isso me vai levar. Certamente que há um elemento espiritual no meu trabalho que vem claramente da minha exposição às influências da religião católica quando era criança. Penso que no futuro me dirigirei por aí — pelos temas espirituais. Mas, quem pode dizer?

MP — O seu último livro, “Leaving Pico”, é uma novela. Porque é que decidiu escrever em prosa?

FG — As personagens e o cenário exigiam a maior esfera de acção de uma novela. Algumas das personagens da história aprecem no primeiro livro, “The Holyoke,”, escrito nos anos 80. Foi aqui que Josie Carvalho “se revelou”, aparecendo em dois ou três poemas. Ernestina, a esposa do sapateiro, apareceu também num desses primeiros poemas, tal com o avô e o tio-avô. O velho Coelho aparece no meu segundo livro de poemas, “Mass for the Grace of a Happy Death”. Mas estes pequenos poemas não dão o espaço a estas personagens que elas precisam para se desenvolverem. Daí ter decidido escrever uma novela. Foi como uma promessa de sangue. Jurei que eles seriam as personagem na novela. Mesmo que eu não pudesse publicá-la, penso que teria fotocopiado as páginas para as distribuir de mão em não na minha cidade. Estava mesmo preparado para fazer isso...

Uma história passada em Provincetown na comunidade portuguesa

MP — Trata-se de uma história passada na comunidade portuguesa de Provincetown. O que é que no livro é real e o que é que é ficção?

FG — Bom, devo começar por dizer que a novela NÃO é um autobiografia, como muitas pessoas tentam fazer crer. Por outro lado, também não é histórica nem sociológica. É uma trabalho da imaginação do escritor. No entanto, a cidade é muito real. As casas, as pessoas, o nosso modo de vida, os barcos de pesca, a baía, o oceano. Tudo é real. O narrador não sou eu e a família não é a minha e nada da história me aconteceu a mim. Mas devo dizer que cada tábua e prego da casa do Carvalho é real. Eu cresci nessa casa (não havia nenhuma antena no telhado, posso assegurar-lhe) e nós não tínhamos um vizinho “Lisboa”. Havia uma fábrica de conservas perto da casa que nós adorávamos.

Crítica favorável no New York Times

MP — O jornal The New York Times disse do livro que ele é um retrato fiel da comunidade portuguesa e da luta que esta trava na América contra a integração. Acha que os portugueses são mesmo assim? Vivem aqui fisicamente mas o coração ficou em Portugal?

FG — Essa crítica do New York Times é muito interessante. Acho que o “retrato fiel” é um pouco exagerado, mas penso que captei uma pequena parte do modo de vida de uma pequena cidade. Mas não podemos ignorar que há tantas e tão diferentes comunidades portuguesas que nenhuma novela poderia falar por todas elas. Nós precisamos de mais novelas, mais novelistas, mais poetas e mais escritores. Se o coração ficou em Portugal? Absolutamente. Eles falam de Portugal com tanta saudade e tão persistentemente, mesmo sabendo que a vida material é melhor aqui nos Estados Unidos. E a palavra “Portugal” nunca é usada, é sempre “a minha terra”. Foi assim que eu ouvi falar da “minha terra”, que era como uma terra mágica ou o continente perdido da Atlântida. E a língua portuguesa era também essa linguagem perdida, que existia apenas nessas histórias. Eu nunca li muito acerca de Portugal em livros, não era possível encontrar muitas histórias acerca de nós. Era como se fôssemos de outro planeta.

Literatura étnica?

MP — “Leaving Pico” foi classificado como parte daquilo que nos Estados Unidos se chama “literatura étnica”. Acha que isto é bom ou mau para o sucesso do livro?

FG — As pessoas na minha cidade leram o livro e reconheceram o seu mundo. Logo, desse ponto de vista ele é um sucesso. Recebeu também muitas críticas favoráveis onde a história, ser ou não ser sobre portugueses, é irrevelante. Mas se o classificam como “étnico”, melhor, pois há tão pouco escrito acerca de nós que deixem-me pelo menos espetar um dardo na parede. Eu sei que o livro não “fala” por todos os portugueses-americanos que aqui vivem, mas espero que lhes “fale” a eles. Eu espero que haja um outro escritor qualquer que pense “Eu posso fazer melhor do que isto”, ou “A minha experiência não é como esta, por isso vou escrever eu a minha própria”. A verdade é que não há suficiente literatura luso-americana, como também não suficientes caracteres portugueses na literatura americana.

Poucos escritores
luso-americanos porquê?

MP — O Frank e a Catherine Vaz são os dois únicos escritores luso-americanos editados pela chamada grande imprensa e a escreverem sobre temas relacionados com a nossa herança étnica. Acha que, de alguma forma, sente que representa a nossa comunidade? Por que é que as outras étnias têm tantos escritores de sucesso na América, a escreverem sobre coisas suas, e nós temos tão poucos?

FG — Bom, essa pergunta toca-me particularmente. Penso que a Catherine é um dos nosso grandes heróis. Ela rompeu uma importante barreira. O meu primeiro livro foi publicado há cerca de 10 anos, e apesar de ter vendido bem, uma colecção de poemas não tem o mesmo impacto de uma novela. Foi a Catherine que espetou o primeiro dardo na parede. E que dardo! A minha experiência é substancialmente diferente da dela, tal como o meu livro, embora ambas sejam válidas. A verdade é que são precisos mais escritores de descendência portuguesa. Somos tantos e espalhados por todo o lado que dois ou seis estão longe de nos representar.

Mas a sua pergunta toca naquilo que eu penso ser fundamental: onde estão os escritores luso-americanos? Nós estamos aqui, claro, mas onde? Veja-se por exemplo os irlandeses-americanos, os afro-americanos, os mexico-americanos, os cuba-americanos. Todos eles possuem estantes cheias de livros nas melhores livrarias, fazem parte das antologias e a sua literatura é ensinada nas escolas. E nós, onde estamos? Porque razão somos invisíveis? Esta é uma questão que tem de ser discutida. Não sei como vai ser o futuro, espero continuar a escrever e rezo para que a Catherine também, mas a verdade é que precisamos de mais escritores, mais pessoas como George Monteiro, Onésimo de Almeida, Alice Clemente e outros que só agora estou a conhecer.

Mais novelas

MP — Planeia escrever outra novela centrada na comunidade portuguesa?

FG —Sim, mas não sei como será. Neste momento trabalho em alguns poemas.

MP — Os seus poemas já foram traduzidos para português?

FG — O fantástico Vamberto de Freitas traduziu dois deles. Foi para mim uma honra. O meu português ainda não é muito bom, mas as traduções soaram-me muito bem. Há algum interesse em traduzir mais por parte de outras pessoas, mas nada de concreto até agora.

MP — Como é que é a sua relação com Portugal? Conhece o país? Vai lá muitas vezes?

FG — Já estive em Portugal, mas não visito regularmente o país. Para mim, essa terra continua a ser como uma lenda. Nunca estive nos Açores, mas espero lá ir esta Primavera. Não imagina como estou excitado, pois sempre olhei para as ilhas com um lugar místico.

MP — O Frank é também professor de Literatura e Escrita Criativa. Esta é a combinação perfeita com o escritor?

FG — Não. É muito difícil ensinar e escrever ao mesmo tempo. As minhas turmas são grandes e gerir o tempo é sempre difícil para mim. Quem me dera ter mais tempo só para a escrita! Neste momento ensino durante o dia e escrevo à noite. Espero tirar algum tempo num futuro próximo para começar a trabalhar numa nova novela. Vamos ver.

MP — Pretende vir a ser lembrado como poeta ou ficcionista?

FG — Ficaria muito contente só pelo facto de ser lembrado.

(Texto gentilmente cedido à "Satúrnia" pelo "Mundo Português")

 

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